sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Desejo

          O dia estava quente. Meu corpo, nem tanto. Pelo contrário, sem vaidade. Sem rímel. Sem pó.Sem batom. Uma leve intumescida. Nada estava dando certo. Tropecei ao sair de casa. Observei que estava com pé esquerdo. Mandei a superstição ir à merda. Depois acabei por tropeçar no cadarço do meu tênis, antes mesmo do elevador chegar. Pedi desculpas para as superstições. Então, saí com pé direito. Ufa! Deu tudo certo! Eu disse convencida de mim. Cheguei na garagem o pneu da bicicleta estava furado. Não era dia de andar de carro. Não tive escolha. Estava atrasada. O carro estava na reserva de gasolina. O trânsito estava confuso na Rua Amélia. Corri para o posto mais próximo. Na contra-mão, uma Hilux branca me bateu. Aliás, bateu na porta do meu carro. Comecei a achar que realmente o dia não estava agradável. Não criei confusão. Até quando um rapaz moreno-praia baixou o vidro do carro e deu boa tarde. Mexi o cabelo. Para tentar facilitar a falta de vaidade. A biologia da fêmea humana explica que em coorte, elas mexem o cabelo. Logo, eu estava como uma leoa ao vento. Ele gostou. Eu percebi. Ele contou uma história que a gente já havia se conhecido anteriormente. Não consegui resistir aquela história canalha: tive que ser sincera. Você me quer?  Ele ficou inexpressivo. De moreno-praia à pálido-neve. Talvez os homens modernos não estejam mais aptos para mulheres das cavernas. Então, o lambi no rosto. Dei um selinho. E toquei seu pênis carinhosamente com a mão direita. O frentista ficou paralisado. Pedi para ele estacionar o seu carro e vir comigo. Não queria saber seu nome. Sua profissão. Sua opção sexual. Queria testar minha feminilidade. Ele veio. Ele quis vir. Ele optou por vir comigo. Porque quis. Não obriguei ninguém. Ele sentiu desejo. E por que não desejar alguém e a tê-la sem pré-conceitos? Levei o moreno-praia doce do posto de gasolina para a orla de uma praia mais ou menos populosa. Sem falar nada. Eu calada. Ele calado. Unidos pelo desejo. Separados pelo anonimato. Unidos pelo carro. Separados pelo o que ainda estaria por vir. Abri a sua bermuda de surf azul com listras brancas e chupei até encher minha boca. Ele gritava com aquela chupada. Como se não houvesse amanhã. Como se a sua voz fosse infinita. E no outro dia não importasse a rouquidão. Gozou uma. Duas. Três. Coloquei minha língua em todo o seu corpo. Então sentei de costas em seu colo.Olhando para as pessoas que não podiam infelizmente nos observar pela película do carro escura. Então, sentei, sentei, sentei até me regozijar...não conseguia parar em cima dessa praia com ondas tão fortes. Que passavam dos pés a cabeça. Em um só corpo. Em várias vozes. Unindo tudo. Separando. Unindo. Separando. Nesse ciclo sem fim. Que na verdade, teria um fim. Infelizmente. Ele pegava no meu peito e gritava de tudo ao afundar em mim. Eu tremia. Ele também. Um cheiro sexo impregnou o carro, a praia e o moreno-praia. Depois de desfrutar de seu teso pênis, o que me restou foi esperá-lo até que vestisse a bermuda de surf azul com listras brancas. 
Então o devolvi para o posto de gasolina sadio. Os frentistas sorriram para mim e disseram que hoje era meu dia de sorte...Mandei a superstição ir à merda!
 Escrever isso me deixa vulcânica. Porque é pessimista tentar parafrasear um desejo realizado. Espero nunca mais reencontra-lo. Afinal, desejo é um querer, uma vontade e não uma história com começo, meio e fim...

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